Lembranças de Uma Nota de 1 Real
Lembro-me bem do dia do meu nascimento: 1º de Julho de 1994. Neste dia todo mundo ficou apreensivo com a minha chegada, muitos achavam que eu não iria dar certo, outros até torciam para que isso não acontecesse. Mas na verdade foi neste dia que eu passei a ter valor. Foi uma sensação muito boa sair do nada e chegar ao mundo com todas as espectativas voltadas para mim. É... De lá pra cá já são mais de dez anos. Já passei por diversas mãos e em diversas situações fui trocada por objetos e uma porção de coisas que, na minha opinião, eu valeria bem mais. Mas tudo bem, como não tenho vontade própria vou dependendo da vontade dos outros.
Neste tempo todo também ouvi muita coisa, algumas agradáveis e outras nem tanto. Já disseram que eu não valia nada; que comigo só se compra coisas de pequeno valor, como se tudo que é barato não prestasse, ora bolas! Por outro lado pude ver a alegria no rosto da criança quando esta me viu deitada em suas mãos. Neste momento fiquei imaginando o que essa criança faria comigo, com certeza não iria me guardar em seu porquinho. Pra falar a verdade, eu é que não queria ser misturada com outras notas num porquinho, nem muito menos com moedas! Falam de mim, que comigo não se compra nada; pior são as moedas: tem de cinquenta, de vinte e cinco, de dez, de cinco e (risos) de 1 centavo, hahahahahhahaaaa... E ainda reclamam de mim, pelo menos não sou uma moeda de 1 centavo que ninguém usa mais. Hahahhaha... Sou mais eu. Verdinha, bonita toda com um beija-flor tatuado nas costas. Depois de mim as outras também fizeram tatuagens: a de dez fez uma Arara, a de cinco fez uma Garça; até a de cém fez a sua, um peixe chamado Garoupa. Bando de sem criatividade! Depois disso, tô até pensando em apagar a minha. Além do mais o verde tá na moda. Mas voltando ao assunto que ficou lá pra trás, a criança que me recebeu acabou me trocando por um monte de bombons, pipoca e pirulito e ainda pediu o troco; acho que ela pensou que eu valesse como uma nota de dez reais, de dez não, de cinco... Ah, o que importa? Pelo menos uma vez na vida me senti importante.
Depois disso fui parar nas mãos de um vendendor de budega. Aí você pode imaginar, o caba me meteu junto num bolo de notas, parecia aqueles frentistas de posto de gasolina cheio de notas nas mãos sujas e eu lá no meio fazendo volume. Depois chegou mais outra, mais outra e mais outra. Odeio esfrega, esfrega! Por falar em mãos sujas, odeio esse povo que não sabe lavar as mãos e fica por aí pra cima e pra baixo com as mãos fedendo a cebo e suor apertando a mão de um e de outro. Como aconteceu outra vez quando o camarada que estava comigo foi apertar a mão de um amigo que ele tinha visto e que há pouco tinha saído de um banheiro em pleno mercado público, argh!! Como é que eu sei? Ora, depois ele me pegou com aquelas mãos imundas pra passar o troco e pude sentir aquele catinga de mijo choco, arrrrgh!!
Mas nesse mundo tem gente pra tudo. Tem até uns idiotas que gostam de ficar riscando as notas, escrevendo baboseiras do tipo: “quem pegar neste dinheiro será abençoado e ganhará muito mais”. Nunca vi tanta idiotice numa mesma pessoa. Além do mais, ficamos toda riscada e feia. Mas uma coisa que ultimamente tem acontecido muito e que me faz explodir de raiva é esse povo que falsifica dinheiro. Pra falar a verdade, por um lado tenho raiva mas por outro acho até bom que não me falsifiquem. Tenho raiva porque eles só falsificam notas de cem, cinquenta, de vinte reias. Nunca vi uma nota de 1 real falsificada! Dizem que não vale a pena. Ora bolas! Mas é até bom que isso não aconteça, com o tanto de coisas que dizem por aí de mim e ainda me chamarem de falsa... Ah, isso eu não iria aguentar!
Bem, vou ficando por aqui. A verdade é que tenho muitas histórias pra contar, então fica para um outro momento. Mas espero que, depois de terem lido o que escrevi, vocês passem a dar mais valor à mim e minhas amigas verdinhas. E ainda dizem que dinheiro não traz felicidades, besteira! Quem não gosta de dinheiro neste mundo? Faço uma aposta com vocês: quero ver se alguém achar perdida no chão uma nota de 1 real, se ela não vai colocar no bolso. Duvido neguin achar e deixar lá pra outro pegar. Tem uns que até olham de um lado e de outro e colocam disfarçadamente no bolso e ainda saem assoviando. Ainda tem aqueles que colocam o pé em cima da nota e espera todo mundo passar pra poder pegá-la. Hahahhah... Eu aposto! Mas só até 1 real. Se você ganhar eu sou toda sua.
Pequenas Histórias
Nº 3
D. Nega morava num bairro calmo de uma dessas cidades não muito grande e próximas da capital. Já vivia ali um bom tempo, conhecia a todos e todos lhe conheciam. Ela era daquele tipo de vizinha que quando preparava algum prato, sobremesa ou qualquer coisa parecida, sempre guardava um pouquinho para o vizinho do lado. Se tinha uma coisa que tirava o sono de D. Nega era a desigualdade social. Não suportava ver tanta miséria nesse país imenso e tão rico. Mas ela fazia sua parte e sempre que podia contribuía para amenizar as diferenças existentes na sua cidade.
O certo é que lá na rua onde ela morava passavam diariamente vários mendigos de porta em porta pedindo alguma “ajudinha pra família”. Ela sempre se tocava com a pobreza alheia e quando tinha condições ajudava a todos. Mas, entre eles, tinha uma jovem que umas duas vezes por semana passava religiosamente na casa de D. Dora pedindo algo. Ela, como sempre, a ajudava e se comoveu tanto com essa menina que chegou até a fazer uma feira à parte e separar para entregar a ela na medida em que fosse passando durante o mês. Algumas amigas de D. Dora diziam que ela estava acostumando mal a menina fazendo isso e que dessa forma ela nunca iria aprender a conseguir as coisas com seu próprio esforço. Acontece que um belo dia essa menina aparece grávida na porta de D. Dora com uma barriga já a vista e lhe pedindo uma esmola. A partir daí ela passa a adicionar mais produtos para a mendiga em sua feira. Depois de um tempo aparece a mendiga com o seu menino nos braços de porta em porta pedindo uma ajuda e D. Dora, como manda sua consciência, lhe entrega um saquinho de leite para ajudar na alimentação do menino.
Tempos depois a mendiga engravida novamente e lá está ela na porta da bondosa senhora pedindo mais uma vez. D. Dora ao vê-la toma um susto e indignada, sabendo das más condições que tem a mendiga de criar mais um filho, lhe pergunta como é que isso foi acontecer, porque ela não se preveniu e coisas do tipo. A mendiga diz que “aconteceu”, que foi um deslize, que foi sem querer... A bondosa senhora, que nesse momento já estava botando fogo pelas ventas com a situação lhe diz: “mas minha filha como é que você vai criar agora dois filhos nessas condições?”, no que a mendiga responde sem graça: “na verdade esse que tá vindo é o terceiro. O mais velho tá pedindo lá na outra rua e o do meio está aqui em meus braços”. D. Dora, puta da vida, vai lá dentro e volta com a ajuda da mendiga na mão e diz: “Aqui está sua esmola”, “mas isso são camisinhas, não enche barriga de ninguém” disse a mendiga. “Mas é justamente por isso que eu estou lhe dando”, respondeu D. Dora batendo a porta na cara da mendiga.
Em 2005 eu...
Quase arrumei um emprego;
Quase que não fali;
Quase passei na 1º etapa do vestibular;
Quase passei num concurso;
Quase fui assaltado;
Quase bati com o carro;
Quase não fiquei bêbado;
Quase fui conhecer o mundo;
Quase que não adoecia;
Quase que não me aborreci;
Quase não mandei o povo tomar na pipoquinha;
Quase não tive pesadelos;
Quase ganhei na Quinta da Sorte;
Quase que...
... Em 2006 desejo a todos um ano de “não quases”.
Pequenas Histórias

Nº 2
Missa de sétimo dia da morte de José Augusto Moreira. Toda a família presente e enlutada; amigos e companheiros prestando suas ultimas homenagens ao recém falecido. Entre eles beatas e curiosos. D. Elza, também presente na celebração, não perdendo a oportunidade, garantiu-se de providenciar o quanto antes o santinho do morto. Ao vê-lo em suas mãos surge imediatamente um leve sorriso no canto da boca. Mais um pra sua coleção.
Chegou em casa satisfeita, com um ar de realização. Além de prestar sua homenagem ao morto (que nunca antes havia sequer ouvido falar em seu nome) rezou muito e agradeceu por tudo, como sempre faz quando em lugares santos. No aconchego de seu quarto procurou a caixa de sapatos que fica dentro de seu guarda-roupa. Retirou-a lá de dentro. Abriu, deu uma ultima olhada no santinho e colocou-o entre os outros que ali dentro jaziam. Fechou a caixa de sapatos e tratou logo de colocá-la no mesmo lugar.
D. Elza tinha uma mania. “Terrível”, “de causar arrepios” alguns diziam. Mas não se importava. Aquilo não passava de um passa-tempo bobo e porque não dizer divertido, para ela ao menos. Mas D. Elza não contava com o imprevisto que todos nós estamos sujeitos pelos percalços da vida.
Sempre que perguntada por suas amigas sobre sua coleção, ela corria pro quarto e logo vinha com a caixa na mão e sua mórbida coleção de santinhos. Mostrava com orgulho pra todas as amigas, algumas até se arrepiavam quando viam tantos reunidos num mesmo lugar. Umas, as mais ousadas, colocavam a mão lá dentro e retiravam, no meio de tantos outros, um santinho desconhecido. Bastava D. Elza bater o olhar e logo ia dizendo o nome do infeliz, a data que morreu e as circunstancias de sua morte. Além de outras curiosidades que sempre corriam a boca pequena entre beatas e curiosos que se faziam presentes na igreja. Já nem lembrava mais quantos santinhos havia na sua coleção. Há muito tinha parado de contar, mas calculava em torno de cem ou mais. Quando não podia se fazer presente nas missas para pegar o santinho (coisa rara de acontecer), aceitava com grande felicidade quando uma amiga lembrava e trazia para ela o cartãozinho de defunto, como ela gostava de chamar.
Em uma noite de muita chuva D. Elza resolveu, a contragosto da família, ir pra mais uma dessas celebrações. Parecia mesmo que o tempo ruim anunciava alguma coisa. Durante todo o dia o tempo permaneceu fechado, apenas ameaçando ou chovendo de leve. Ao cair da noite a tempestade veio forte, com direito a relâmpagos, trovões e rajadas de vento. Apesar de tudo D. Elza conseguiu chegar à igreja e garantir o seu santinho. No fim da celebração ficou esperando que o tempo amenizasse para que ela pudesse ir embora. Alguns minutos depois, ao ver D. Elza ali parada e preocupada com a hora, um casal conhecido ofereceu carona para ela. No meio do caminho o tempo parece piorar e já próximo de casa o vento forte derruba uma árvore fechando parte da pista. O motorista do carro tenta desviar rapidamente passando para o outro lado da pista quando é surpreendido por um caminhão que vinha no sentido oposto. Acho que não preciso dizer que D. Elza morreu neste acidente e embora pareça um milagre, como foi entendido na cidade o ocorrido, o casal amigo de D.Elza conseguiu escapar dos braços da morte.
Missa de sétimo dia de D. Elza. Toda família presente e enlutada; amigos e companheiros prestando suas ultimas homenagens a recém falecida. Entre eles beatas e curiosos. O marido de D. Elza recebe o santinho de sua esposa aos prantos. Ao chegar em casa, abre o guarda-roupa, retira a caixa de sapatos abrindo-a e coloca lá dentro o ultimo santinho. Pronto! Agora a coleção está completa.
Pequenas Histórias

Nº 1
Augusto morava em um apartamento. Era o vigésimo segundo andar de um prédio velho construído há uns vinte anos. Esse apartamento tinha uma varanda não gradeada. Mais à frente, a vista livre da paisagem urbana e o vento frio que batia no rosto. Em baixo a rua barulhenta do dia-a-dia da cidade e as pessoas, que vista de cima, pareciam formigas andando de um lado para o outro atrás de suas vidas.
Ele não pensou duas vezes. Depois de alguns minutos olhando toda a paisagem em sua frente ele respira fundo; dá alguns passos para trás até a sala, chegando próximo da porta de entrada, começa a correr e pula.
Por alguns segundos, que parecem horas, imagens da vida de Augusto passaram na sua frente com uma nitidez tão grande que parecia que ele estava vivenciando-as novamente. Sabia que iria morrer. E, enquanto imagens se sucediam na sua lembrança, ele caia confortavelmente abrindo espaço no ar numa queda livre onde a única certeza era o mais duro concreto que lhe puxava cada vez mais rápido para baixo. Mas ele não se preocupava com isso. Não se desesperou, aliás, parecia mesmo voar de braços abertos inspirando todo o ar que seus pulmões podia juntar.
Caiu no chão fazendo um barulho surdo e provocando um susto nas pessoas que passavam desavisadas de sua intenção. Alguns transeuntes horrorizados com a cena saíram apavorados; outros, em maior número, se juntaram pra ver o corpo estendido no chão. Logo começaram as perguntas pra tal desfecho. Podia-se mesmo ouvir alguns comentarem: “meu Deus, tão novo”, outras diziam: “isso é coisa do demônio. É o fim dos dias que está chegando!” E outras mais além: “me disseram que ele usava drogas, fumava uns cigarros...”
As pessoas, antes apressadas, arrumaram um tempo nas suas agendas imaginárias e foram ver o acontecido. Hoje vai dar no rádio e na televisão. Amanhã sai no jornal. Mais um assunto pra cidade, menos um problema pra Augusto.

Deu Branco
Comprei um bloco de papel para escrever as coisas que me vêm à cabeça. Antes escrevia numa folha aqui, outra li, mais outra acolá e era aquela bagunça. Agora não! Posso escrever tudo certinho nas linhas do meu novo bloco que até cheiro de novo têm. Que maravilha!
Resolvido um problema logo tropeço em outro: abro meu bloco e olho para ele; ele olha para mim e diz: “e aí?” Essa pergunta se não fosse tão intimidadora quanto desafiadora teria me desajeitado a ponto de travar na minha mão o lápis. E realmente travou! Fiquei ali parado a olhar pro papel em branco procurando palavras, assuntos, idéias, estórias, qualquer coisa que me fizesse mostrar quem é que realmente mandava na situação. A folha (mais uma vez) me desafiava e ria da minha cara. Pude até ver, imaginem só, se formar naquela brancura, que até parecia branco de comercial de sabão em pó, um sorriso escroto daquele papel miserável como quem propõe um desafio sabendo ser quase impossível realizá-lo.
Muito que bem. Cocei a barbicha recém aparada e comecei a pensar em algo. Pensei comigo mesmo (pois o papiro miserável não poderia se dar conta de meu desespero): “existem milhões de assuntos basta apenas escolher um”. Neste mesmo momento lembrei-me do Bob Dylan: “a resposta está soprando no ar”. É isso! Pimba! Quem sabe escutando as coisas a minha volta não me vêm um assunto. Concentro-me e começo a escutar os primeiros sons: o bebê da vizinha chorando. Não, não vou viajar nisso; o barulho da tv. Não, também não tô afim; o cachorro que late ao longe. Nãããão!; a briga de casal dos vizinhos do ap do lado. Isso sim dá uma boa estória, mas se ao menos fosse por conta de traição. Fica pra depois. A coisa pega e começo realmente a pensar na possibilidade de simplesmente fechar o bloco e esquecer tudo. No que surgem, em meio ao meu desespero, outras possibilidades: o aumento das passagens, o mensalão do PT, o aluguel do apartamento que tenho que pagar amanhã, a chuva que cai, a muriçoca que morde minha canela, o fim do mês, o fim do ano, o começo do outro; ai, ai, ai!; a feira que tá acabando, a transposição do velho Chico, George Bush no Brasil, Cheeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeega!!!
Resumo agora, caros leitores, o que se sucedeu: depois de tanto pensar no que poderia eu escrever, mostrando assim minha superioridade sobre o papel branco que ria de mim, resolvi o impasse escrevendo tudo aquilo que tinha pensado em escrever; o que é nada mais nada menos tudo isso que você está lendo agora. E pra mostrar pro papel, que antes era branco, quem é quem manda, terminei com a sugestiva frase: “fim por fim, feito por mim”. E ainda assinei em baixo.
Olá pessoal!
Estou quase tomando jeito. Os textos vêm e vão, passeiam por minha cabeça, dançam na minha frente às vezes até enquanto durmo. Alguns deles ficam, outros vão embora. Esse, aí embaixo, é um deles. Espero que gostem e comentem sempre que possível, afinal, a discussão não termina com o meu ponto final. Até rimou, olha só.
Ps.: Tive que publicá-lo separado novamente por conta de problemas com
o espaço.
Abraços.

Sim ou Não?
Em tempos de CPI, escândalos políticos, escândalos no futebol e todas as desgraças que assolam nosso país, somos “convidados” a votar no referendo que vai decidir a legalização ou não das armas de fogo e munição no Brasil.
Não vou dar minha opinião aqui neste espaço, acho que de opiniões já temos muitas por aí. Até porque não sou nenhum Chico Buarque, Carlinhos Brown; nenhum ator, cantor, ninguém de projeção internacional, nacional, nem muito menos local pra ta dando opiniões a ponto de mudar ou convencê-los um pouco mais sobre sua decisão. Já basta os 18 minutos diários de campanhas na TV com os argumentos do “sim” e do “não” além dos dez minutos diários para inserção na grade de programação.
Mas o que me chama a atenção nisso tudo é como a mídia tem tratado o assunto em questão. Ninguém mais segue a cartilha do bom jornalismo, àquele que aprenderam lá atrás (se é que aprenderam) ainda nas faculdades e que fala da imparcialidade.
A Rede Globo assumiu mesmo a posição pelo “sim”. Atores, cantores e artistas em geral se manifestando nos horários reservados a propagando do referendo. Do outro lado, os que são a favor do “não” mostra os não-famosos dando suas razões pra suas escolhas. E cada qual que faça a sua, a sorte está lançada. A edição 1925 da revista VEJA da semana passada saiu pra todo Brasil mostrando “7 razões pra votar no Não”. Na edição 1926, a dessa semana, a revista diz que bateram “o recorde de manifestações dos leitores” com 2306 “mensagens eletrônicas, fax e cartas sobre o assunto” onde desse total 59% mostraram-se a favor da reportagem e 32% contra. Apenas 9% comentaram o assunto. E a Veja gaba-se de ter prestado um grande serviço à população, logo a Veja com suas reportagens e matérias tendenciosas, a mesma que semanas atrás questionava o valor da obra filosófica de Sartre de forma desonesta, reduzindo a importância de Sartre à sua contribuição literária. E não pára por aí: nesta mesma edição da semana passada, saiu um artigo não assinado chamado “O mensalinho de Maria Rita”, no qual o jornalista anônimo faz acusações dizendo que a Warner tentou corromper 30 jornalista com um aparelho iPod em troca de bons comentários sobre o trabalho da cantora. Acusou ainda o jornalista da Época, Luís Antônio Giron, de ter recebido o aparelho e de ter elogiado o novo cd da Maria Rita. Ele, no seu direito de resposta, criticou os comentários do jornalista anônimo da Veja, dizendo que a revista não conferiu as informações do que publicou e que tinha devolvido o iPod presenteado pela Warner. No que diz respeito aos bons comentários feitos ao novo cd cantora, diz que “Maria Rita é uma boa cantora e que conquistou lugar merecido na MPB” e que foi honesto no que publicou. Esses são apenas alguns exemplos que eu tenho acompanhado e que servem para ilustrar a falta de compromisso com o jornalismo sério. Mas o assunto aqui é o desarmamento, não é?
(Continuação)
A Revista Época edição nº 385, da semana passada, foi mais discreta. Foi imparcial na capa mas não no conteúdo. Também pudera, ela faz parte das publicações da Globo e como dissemos no início, a Globo tomou posição pelo “sim”. A Época dessa semana de nº 386, veio com a matéria de capa “10 Mitos Sobre as Armas”, falando das “falsas idéias que contaminam o debate sobre o referendo”. Mais uma vez foi imparcial na capa mas não no conteúdo.
Temos a escolha pra esse referendo nas mãos, ou melhor, na ponta do dedo e até o dia 23 de Outubro, temos alguns dias pra pensar e repensar nossos posicionamentos. Até lá muita coisa ainda vai rolar: outras reportagens virão, programas na tv, jornal, revista, rádio, conversas com amigos, no botequim... Precisamos estar atentos e não nos iludir com os meios de comunicação. Há muito que estes não vêm cumprindo com seu dever de informar os cidadãos sem usar de interesses pessoais para benefício próprio. Não dá pra votar “sim” só porque seu Chico Buarque mandou ou “não” porque a Veja é a maior revista de circulação semanal.
Pra terminar:
Duas coisas a mais me chamam a atenção nessa estória toda: se vivemos em um país que se diz democrático, porque ainda somos obrigados a votar? Outra e pior: além de sermos obrigados a votar, somos obrigados a votar em apenas duas opções. Cadê as opções para os votos “nulos” e “brancos”, esqueceram-se?
Olá amigos,
Me desculpem a demora pra atualizar o blog, é que ultimamente ando sem paciência pra isso e pra outras coisas também. Aliás o texto a seguir fala um pouco sobre isso. Devido as limitações do blog, vou colocar o texto em duas partes. Boa leitura!
Paciência Tem Limite
Sábado, 17 de Setembro de 2005. 13h10. Tempo quente, muito quente e uma vontade enorme de chegar em casa e tomar aquele banho bem demorado pra compensar essa insolação que me persegue por toda parte dessa cidade. Às vezes nem parece que João Pessoa é a segunda cidade mais verde do mundo. Onde estão as árvores agora? Cadê o tempo que não fecha deixando o “céu nublado ou parcialmente nublado com pancadas de chuvas isoladas” como avisou a mulher do tempo? Besteira. Com o anos você vai aprendendo a não dá crédito a essas coisas, a ciência acha que explica tudo.
Soma-se a tudo isso uma fome daquelas em que você de posse dos instrumentos necessários faz aquele pratinho de pedreiro e ainda lambe os dedos no final. Mas ainda tem um detalhe que pretendo me alongar mais adiante, uma coisa que não poderia passar desapercebido, nem que eu quisesse. Depois de ter andado o centro de João Pessoa, cidade baixa e cidade alta, ter pagado as contas, ter tomado todo esse sol e com essa fome que aumentava a cada instante, pegaria o último trem para a cidade de Santa Rita que marcado pra chegar às 12h48 só apareceu às 13h11. Nunca pensei que ficaria tão feliz em ver o trem se aproximando e pensei: “agora sim, breve estarei em casa”. Doce ilusão. Ao subir naquele trem parti pra viagem mais demorada de toda a minha vida. Senhoras e senhores o que vocês irão ler nas linhas seguintes é o mais fiel relato dessa viagem inesperada.
Muito que bem, pra início de estória não tinha lugar pra se sentar naquele trem maldito em que me encontrava. Vagões e mais vagões e nenhum lugar pra se sentar. Ao parar em João Pessoa, alguns poucos passageiros desceram e a multidão que subiu naquela estação ocupou em segundos os lugares ociosos. Pensei comigo: “hoje é o meu dia”. Ah! Detalhe: levava comigo uma mochila cheia de bugigangas necessárias pra se passar o fim-de-semana na casa dos pais. Naquele instante parecia que carregava todo o peso do mundo em minhas costas, tentando me manter calmo (mais do que sou) e olhando para os lados na expectativa de algum bom samaritano desocupar algum assento. Próxima estação e eis que alguns descem e consigo um lugar para pousar este corpo cansado. Do meu lugar começo a observar as relações sociais que se passam ali dentro. Homens e mulheres passam indo e vindo vendendo todo tipo de coisa que você pensar: frisos para cabelo, din-din, picolé derretido, salgados, balas, refrigerantes, suco e toda uma gama de produtos inimagináveis que de quando em vez encontravam algum comprador. Vi também umas duas crianças de mais ou menos uns nove anos já entregues ao mercado informal.
O trem seguia seu rumo e na medida em que avançava os trilhos que dividem as cidades, via, através das janelas, as paisagens avançarem diante de meus olhos: mangues e caranguejos correndo pra suas tocas, crianças brincando na beira dos trilhos com cachorros vira-latas, pontes que se elevam nas alturas abrindo as pernas para o trem passar, rios da cor de barro e alguns corajosos a se refrescarem em suas águas e, claro, o apito inconfundível do trem abrindo caminho por onde passava. Volto minha atenção para dentro onde me encontro e permitam-me, senhoras e senhores, que relate aqui a parte mais chata e angustiante, mas não menos engraçada dessa viagem. Na minha frente, no banco paralelo ao meu, uma criança de mais ou menos uns nove meses e sete dias, uma menina, estava nos braços de seu pai e olhava fixamente para um ponto. E por algodão doce nenhum, da cor mais chamativa que fosse, ela tiraria os olhos e sua atenção naquele instante. Pois bem, o que a deixava tão paralisada e atenta era um “irmão” evangélico daqueles bem chatos e certos de que são portadores da verdade absoluta. Vou até um pouco mais longe para tentar definir esse tipo de figura: creio que eles se acham enviados de Deus aqui na terra com a dura missão de evangelizar todos ao seu redor. Pois foi, esse cara não satisfeito com todo o calor que fazia naquele dia e com a cara de cansado de todos os passageiros daquele trem, blasfemava contra o bom senso e contra o verdadeiro sentido da boa religião. Era o barulho do trem por cima do trilo e o “irmão” a pregar “a palavra”. Essa figura usava uma blusa preta de manga longa (acho que fez isso pra se penitenciar naquele dia de sol infernal), calça bege e tinha a unha do dedão do pé esquerdo preta e se equilibrava em pé sobre suas sandálias havaianas. Pela aparência e o discurso dele percebi que era um pobre coitado, um iletrado que, na melhor das hipóteses, sabia ler e reproduzia, naquele instante, tudo que o pastor dizia no púlpito da igreja. Esse ser incômodo trazia debaixo do braço uma bíblia grande que abria na página tal, versículo tanto e capítulo não sei das quantas e começava sua pregação: “Eu não quero criticar, mas tem umas religião aí que diz que o homem tem que ser rico, ter mansão, ter carro... Que religião é essa que diz essas coisas? A ‘palavra’ diz que o homem tem que sofrer, tem que passar por tudo que Jesus passou aqui na terra pra alcançar a felicidade” (...) “hoje em dia a gente vê de tudo nesse mundo, é uma desgraça só: é filho contra pai, pai contra filho, irmão contra irmão, é ciúme, é inveja... O fim dos tempos ta chegando...”
Não bastasse todo esse discurso ele colocava a bíblia debaixo do braço e pegava um livrinho de cantos e começava a cantar os hinos. Foi a viagem toda alternando os sermões e os cantos. Procurava com os olhos alguma coisa que me desviasse a atenção naquele momento e percebi que no outro vagão outro “irmão” também pregava. Era só o que faltava. Outra coisa que não pude deixar de perceber era sua habilidade em se equilibrar, no meio do trem, com aqueles livros mão. Na medida que o trem balançava pra um lado ele puxava pra outro e assim ia nesse remelexo por todo o percurso. Percebi que não tinha jeito, tinha que escutar suas profecias até minha parada chegar, então comecei a ouvir (perceba-se a diferença) o que ele dizia. Chegou uma hora que não pude segurar uma risada e vi que outros riam também, mas ele prosseguia dizendo: “os que ficam com gracinhas agora, amanhã irão ver que eu estava certo”. Falava, falava e falava e no meio das orações gritava pra todo do trem ouvir “aleluia irmão!”.
O trem prosseguia no seu caminho e a essa altura dos acontecimentos estava mais perto que longe de chegar. O “irmão” que orava no vagão do lado terminou suas preces e veio se juntar ao “irmão” do lado de cá. Enquanto o outro falava sem parar, ele de cabeça baixa e olhos fechados gritava: “aleluia irmão!”. Eu, já bombardeado pelo calor, pelo barulho do trem, pela falta de paciência e aqueles dois idiotas falando asneiras na minha frente, até pensei em puxar uma discussão ali na hora e perguntar que Deus é esse que prega o sofrimento e a dor. Fiquei na minha, não valia a pena.
O trem finalmente chega em Santa Rita. Ao se abrirem as portas, os passageiros descem desesperados e o “irmão” insiste num último canto. Pensam que já acabou? Agora é que vou encarar uma andada de uns 10 minutos até chegar em casa. Aquele solzinho na cuca, aquela fome e os ecos das palavras do “irmão” na minha cabeça. Acho que fui eu quem jogou pedra na cruz, antes tivesse jogado o “irmão” pra fora do trem.
Falei anteriormente que iria aprofundar sobre o assunto rádio. Esqueçam. Que se explodam todas as rádios sem futuro e seus respectivos locutores e podem levar junto o curso de radialismo da UFPB (que não sei pra que serve) e Moiséis Marques, presidente do sindicato dos radialistas da Paraíba. Não é mesmo Ranieri?Buuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuummmmmmmmmmmmmm....!

Caminhos
Vou tentar sair do ócio. É que a folha de papel branca fica sempre a me desafiar, sorrindo da minha cara de otário e me dizendo que sou um vencido e que desse lápis não vai sair nada.
Enquanto olho pra ela o tempo vai passando. Me levanto e tomo uma xícara de café, olho pra ela novamente e nada. Ligo a televisão e nada me interessa, tento tocar algo no violão, mas os acordes parecem não combinarem entre si. Mais um dia foi embora e vejo da varando do apartamento, paralisado, o céu pegando fogo ao se pôr o sol. Rasgo a folha do caderno pensando estar tudo resolvido e logo vejo na seqüência outras mais rindo da minha cara.
Tá difícil achar os caminhos para casa.
Olá pessoal!
Aí vai pra vocês um texto da Geanne Lima falando um pouco da atual situação da programação das rádios locais.
Ps.: Aprofundarei mais sobre esse tema num próximo texto. Boa Leitura!

“Se o Rádio não Toca”
“Se o rádio não toca aquela música que você quer ouvir...”.
(Se o rádio não toca – Raul Seixas)
Faz um tempo que ao deitar-me ligo o rádio à cabeceira da cama e sintonizo na Tabajara FM, única rádio que desde os tempos de universidade escuto. Ao ouvir aquela programação “CLASSE A” fiquei observando a maneira repetitiva com que se passa algumas músicas, a voz ofegante do locutor que fica das dez à meia noite e os flashbacks que mesmo sem querer me fizeram lembrar o tempo em que eu era adolescente, sentindo-me ridícula por ter escutado aquilo um dia. Ao perceber que a rádio Tabajara estava muito monótona, comecei a mudar de estação, foi então que passei pela Tambaú FM, pela Rádio Comunitária de Cruz das Armas e 98 FM. Meu Deus, como o rádio paraibano está desqualificado... Ao fazer o percurso por todas essas emissoras e nada interessante encontrar, lembrei-me de que ainda existia uma esperança: Cabo Branco FM - 91,5. NOSSA! Quanta decepção, uma rádio que carrega o slogan “Cabo Branco FM – Primeiríssima”, considerada uma das mais ouvidas em João Pessoa, simplesmente não toca nada paraibano, apenas uma ou outra brasileira.
A tão falada Cabo Branco FM gosta mesmo é de tocar na sua programação música internacional, daquelas que vêm desde Madonna a Phil Collins, contribuindo para que o povo paraibano desconheça os artistas da terra. Fiquei a questionar-me se as pessoas da Paraíba gostam de ouvir esse tipo de música, ou se são obrigadas, uma vez que não têm opção. Mas também cheguei a questionar-me o que faz os diretores dessas rádios pensarem que a sua programação é primeiríssima, é de qualidade ou até mesmo de bom gosto. Será que esses diretores de programação musical alguma vez fizeram pesquisas qualitativas, pesquisas de opinião? Ou será que apenas se entregaram à chamada indústria massificada que manda nos pensamentos, nos desejos e nas opiniões das pessoas?
Realmente fico preocupada com a desvalorização desse veículo, o primeiro no mundo, que chegou atingindo todas as camadas sociais com a sua rapidez, com a sua habilidade. Fico preocupada com o que escutarão os meus filhos um dia e também com a sociedade pessoense que está tendo que engolir os forrós descartáveis, os ridículos flashbacks e as vozes ofegantes de locutores que na verdade queriam ser cariocas, mas por ironia do destino nasceram paraibanos. Até quando vamos conviver com essa falta de originalidade nas rádios de João Pessoa?... Até quando?
Geanne Lima
(Radialista Profissional e Poetisa)
Olá pessoal,
Por falta de espaço para mais caracteres, coloquei o texto em duas partes que vocês pode conferir na sequencia. Abraços e boa leitura!

Um Passeio de ônibus
Estou me dirigindo à parada do ônibus. Enquanto ando vou pensando nas coisas da vida e falando comigo mesmo. Tenho essa mania, acho que todos têm. Quem nunca escutou a voz de seus pensamentos? Tem gente que fala sozinho, alto mesmo, como se tivesse falando com alguém, mas esse não é o meu caso. Apenas vou processando as coisas que vão acontecendo ao meu redor num eterno monólogo comigo mesmo; acho até que falo mais comigo do que com os outros. Mas voltemos para o começo do texto, eu dizia que estava indo pegar o ônibus, isso mesmo, mas sabe lá Deus o que é que pode acontecer até lá.
Eu moro nos Bancários, bairro da cidade de João Pessoa e ano passado, salvo o engano, aconteceu um acidente nessa parada de ônibus em que, quase todos os dias, eu pego o coletivo. Resumindo a estória: a estrutura da maioria das paradas de ônibus de João Pessoa é de concreto e nesse acidente o ônibus atingiu essa estrutura que acabou caindo por cima de uma pessoa matando-a na hora (eu não falei que tudo pode acontecer? Ainda bem que não foi comigo).
Mas acontece que lá estou eu nesta fatídica parada esperando o Mangabeira 303 e me lembrando dessas coisas. Seria até difícil esquecer, pois a tal parada de ônibus, depois do dito acidente, ficou tão somente com o espaço vazio. E eu estou lá nessa espera a mais ou menos uns 17 minutos e debaixo de um sol de uns 33 graus, mas com uma sensação térmica de uns 45 graus diretamente na minha cabeça queimando meus miolos. Depois de mais alguns (intermináveis) minutos avisto o ônibus chegando. Dou com a mão e ele pára, assim que subo o primeiro degrau o motorista fecha a porta e dá a partida no ônibus. Fico puto com esse tipo de coisa que quase sempre acontece, pois já vi gente que ficou com o braço preso na porta, outros com a mochila e desta vez quase que a minha ficava também. Pois bem, guardo minha raiva para o cobrador que sempre insiste em me pedir a carteira de estudante, ponto este que, me permita o leitor, tratarei um pouco mais adiante.
Após alguns segundos procurando uma cadeira vazia avisto uma ao lado da janela. O ônibus segue em frente avançando pelos buracos da cidade (alguns já deixaram de ser buracos e viraram verdadeiras crateras). Nesse momento, estamos passando pela universidade e em cada parada mais gente subindo e o ônibus lotando. Lembro-me do meu tempo de estudante: acordando às 5h da manhã lá em Santa Rita pra vir pra João Pessoa e dizendo pra minha mãe “só mais cinco minutos”; os lanches que deixávamos pendurados na barraca de Jorge; o ócio na Pracinha da Alegria; as aulas e sonho de sermos “alguém de futuro” depois do curso. Quanto romantismo. Sou despertado pelo miserável do cobrador na sua eterna briga pelas carteiras de estudante, desta vez a vítima era uma menina que tinha esquecido a sua em casa, situação bem diferente da minha. Depois de muito bate-boca, ela se senta do meu lado e indignada continua discutindo com ele, chamando a atenção de todos no ônibus. Entro também na briga e falo pra ele deixar de ser idiota, que não ta ganhando nada com isso, que na verdade ele está sendo explorado pelo patrão e sendo besta. Depois de algum tempo a situação volta ao normal e o ônibus segue em frente. Quase todos os dias é essa mesma agonia, mesmo na parada do coletivo já fico pensando na briga que vou ter com o cobrador. Quando ele pede a carteira digo que ainda não recebi a minha e a briga começa. Na verdade depois que terminei a faculdade e o sonho de se tornar “alguém de futuro” não se realizou, fiquei sem a maldita carteira e tendo que arrumar desculpas para o cobrador enquanto dava um jeito de conseguir outra. O mais interessante é que alguns deles prendem a roleta com o pé, pra impedir de você passar antes de mostrar a carteira. E aí é que a briga é grande. Mas não vou entrar em detalhes, talvez vocês já tenham passado por semelhante situação
(Continua embaixo)
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